Desordem.
Incompatibilidade. Insatisfação. Sexo. Amor. Temas, palavras, sombreados de
conteúdos humanos. Eu, tu, ela… Desejamos penetrações, multiplicações de
prazer. Desejamos ser escravos, escravos da satisfação. Divindades, criações,
amantes idolatrados. Desejamos alguém, alguém que nos crave o punhal do prazer.
Um reflexo da nudez, um embaralhado de corpos. Pornografia consentida, anseio,
apetite fugaz, apetite inflamado. Sinto tudo, sinto-o. Fico imóvel, brinco,
concentro-me na personagem que finjo. Depois viro-me, domino-o dentro de mim.
Intuição de poder, um atropelo da lucidez. Um deleite estimulante, gemidos
agudos, uma repetição inacabada.
Nós, bandidos do amor, desta eterna palavra sem referência concreta, crescemos a desejar tê-lo. Não sei o que ele é, sei que crava, trespassa, consome, mata e destrói. Arrasta lágrimas, suores, batimentos, sofrimentos. Colecciono anos, anos a ver outros cruzarem-se com este vocábulo, esta doutrina, este preceito. Encontram-no, alimentam-se da intensidade dessa emoção. Alguns ainda o conservam, outros já o conheceram, outros reencontraram-no. Eu não. Eu não sei se algum dia o terei sentido. Cruel admitir, cruel pensar, se não foi o que terá sido? Porque se tivesse sido ainda estaria a sê-lo. Mas não o foi decerto. Creio que talvez o tenha sido. Mas fui descrente, não o vi, não o respeitei. E por isso terminou o que quer que tenha sido, já o foi. O ser humano é assim. Desordem, incompatibilidade, insatisfação. O que tem não chega, o que não tem deseja. Descontente sou, és, é, somos. Somos conjugações de verbos. Mas o amor vem quando tiver de vir, e enquanto não vier não virá. Não se apressa se por ele gritarmos, não se precipita se o cobiçarmos.
Sexo, amor, realização, dinheiro. São só palavras, conceitos, terminações.
